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L'architettura della partecipazione

Atualizado: há 7 horas

A arquitetura da participação: um manifesto que o Brasil precisa ler agora. Uma reflexão sobre como o modelo participativo de Giancarlo De Carlo pode transformar a preservação de patrimônio no Brasil, superando o ciclo de fiscalização e indiferença.



Há livros que chegam como um soco no estômago — não por serem agressivos, mas por serem urgentes. L'architettura della partecipazione, organizado pelo arquiteto Giancarlo De Carlo e editado pela Quodlibet em 2013, é um desses. Ele reúne textos que, mesmo escritos há décadas, parecem feitos para o presente brasileiro: um momento em que a preservação de patrimônio ainda navega entre o tombamento jurídico e a ausência de ferramentas reais para manter, conservar e restaurar.


A trajetória de De Carlo é emblemática. Na década de 1970, ele construiu casas para famílias de trabalhadores em Terni de forma participativa — uma prática transgressora dentro do ideário modernista, que promoveu o arquiteto como "autor solitário" e a arquitetura como "rompante de genialidade individual".


O sucesso foi tão grande que o modelo se repetiu em Rimini (plano urbanístico) e na ilha de Mazzorbo, em Veneza. Não era só arquitetura: era um método que colocava as pessoas no centro do processo, desafiando a lógica de controle e eficiência que o modernismo havia abraçado.


Por que isso importa para o Brasil? Porque nossas ações de Preservação ainda vivem de um modelo defasado: fiscalização e punição, com indiferença sobre os meios reais que a sociedade e proprietários de imóveis tombados têm para restauro e conservação.


Tombamos imóveis, mas não criamos ecossistemas de participação que tornem o patrimônio vivo, ativo e sustentável. O resultado é o que vemos nas ruas: degradação, abandono e um senso comum que associa o antigo a "problema", não a oportunidade.


A resenha de Lucia Tozzi, traduzida abaixo, captura a essência do livro. De Carlo não escreve como um arquiteto comum — seus argumentos são claros, pacientes e fervorosos, como ele mesmo disse na revista Domus em 1995. Ele critica o modernismo não por ser moderno, mas por se aliar a ideologias de controle: o "zoneamento" como "clareza" repressiva, que divide funções urbanas para impor equilíbrio social, mas na prática sufoca conflitos e dissidências essenciais à vida urbana.


Para De Carlo, a arquitetura da participação recupera esses conflitos — não como estética ou pastiche, mas como poder. O arquiteto deixa de ser o centro da cena e envolve quem sempre foi excluído: moradores, usuários, comunidades. É uma mudança radical, que ele aplica em Rimini e Terni, descrevendo com sinceridade e lucidez acachapantes as armadilhas intrínsecas aos processos participativos — como o "roubo do consentimento", que na prática, acontece quando a participação vira mediação tendenciosa para conter conflitos reais.


No Brasil, isso poderia revolucionar a Preservação do patrimônio arquitetônico e urbanístico. Imagine processos participativos para projetos de restauro de centros históricos, inventários arquitetônicos feitos com comunidades, planos de preservação e conservação preventiva que envolvam moradores, gestores e iniciativa privada. Em vez de fiscalização punitiva, teríamos co-criação: proprietários, técnicos, sociedade civil e poder público construindo soluções viáveis, que respeitam cultura e território.


O livro é um convite a pensar além do óbvio. Em um país com acervo tombado crescente, mas recursos escassos, a participação não é utopia — é necessidade e é método. E, para quem trabalha com patrimônio, pode ser uma ferramenta essencial para transformar gargalos em oportunidades.


Por que isso importa para a preservação brasileira?


Em um contexto como o nosso — com gargalos em qualificação, investimento e política pública —, o modelo de De Carlo oferece um caminho propositivo: transformar fiscalização em diálogo, indiferença em engajamento. Para instituições como IPHAN, prefeituras e sociedade civil, é uma chance de construir preservação que não seja só jurídica, mas socialmente viável.


E aqui está a ponte com a formação especializada: para operar processos participativos com rigor, é preciso repertório técnico, método crítico e capacidade de coordenação. É nesse tipo de lacuna que uma formação sólida faz diferença — como a que oferecemos na Pós-Graduação em Restauro, onde profissionais aprendem a unir técnica, território e participação para impactar de verdade.


Resenha: A arquitetura da participação

Por Lucia Tozzi (tradução livre de Raquel Nery)


Nenhum arquiteto já escreveu como Giancarlo De Carlo. Na verdade, mesmo muitos escritores reconhecidos não podem se comparar com o excelente estilo de seus argumentos. "Desde que comecei a praticar arquitetura, senti-me assediado pelos aforismos que os arquitetos — especialmente os medíocres — continuavam recitando e, por isso, gostava de raciocínios claros que exigem trabalho paciente e imaginação fervorosa", disse De Carlo na revista Domus em 1995.


Sua obra-prima é The Architecture of Participation, o texto de uma conferência realizada em Melbourne em 1971 como parte de um ciclo sobre cenários futuros de arquitetura e planejamento urbano no Royal Australian Institute of Architects.


A Quodlibet acaba de publicá-lo na série Abitare, juntamente com dois textos sobre os casos de desenho participativo do plano Rimini e da vila Matteotti em Terni, uma escolha muito inteligente que nos permite compreender a medida radical do discurso político de De Carlo.


Villaggio Matteotti, in Terni, Italy
Villaggio Matteotti, in Terni, Italy


Ilha de Mazzorbo, Veneza
Ilha de Mazzorbo, Veneza


Na edição clássica do Assayer, dentro do volume "A arquitetura dos anos setenta", a conferência foi realizada após dois argumentos puramente arquitetônicos por Jim M. Richards e Peter Blake e esse contexto autorizou o leitor a interpretar a arquitetura de participação acima de tudo como uma crítica ao modernismo. E de fato, é inegável que o é, mas não no sentido geral e absoluto que lhe é atribuído.


O objetivo real de De Carlo não é o Movimento Moderno como tal, mas a arquitetura a serviço da autoridade e — naqueles anos — a teoria e a prática modernistas estreitaram laços cada vez mais apertados com as ideologias reacionárias de controle e eficiência da produção.


Sua tese é que "a consonância entre o movimento moderno e o 'zoneamento' surgiu de um mal-entendido sobre o princípio da 'clareza': a clara divisão de funções parecia aos modernistas o melhor meio de obter a máxima clareza das formas urbanas, das quais, de acordo com o dogma, surgiria equilíbrio social. Mas a 'clareza' não é (em si mesma) uma virtude, muito menos possui habilidades de exorcização em relação ao conteúdo que expressa. Não há nada mais claro do que uma linha de montagem, uma ordem policial e uma declaração de guerra".


Aplicada a uma coisa complexa como o sistema de relacionamentos e conflitos da vida urbana, a clareza só pode se tornar um elemento repressivo. Segundo De Carlo, a arquitetura da participação é aquela que permite recuperar as críticas e dissidências, a desordem e os conflitos que o uso da cidade impõem inevitavelmente. Seu discurso, no entanto, nada tem a ver com a dimensão estética ou com os pastiches espontâneos que começaram a florescer naqueles anos, mas diz respeito exclusivamente ao poder.


Ele não se importa com Venturi, Scott Brown e Las Vegas de Izenour, ele quer mover o ego sem limites do arquiteto do centro da cena para envolver aqueles que sempre foram excluídos no processo de tomada de decisão.


Ao contar as experiências de Rimini e Terni, em meio ao entusiasmo e ao fracasso, De Carlo descreve com grande lucidez as armadilhas que um processo tão ambicioso implica, e o pior é o que ele define como "o roubo do consentimento": nada o repeliu mais do que uma participação pretendida como mediação tendenciosa, como uma captura de energias positivas para conter conflitos reais e potenciais.


E pensar que seus herdeiros diretos, os profissionais da participação, hoje são chamados de "facilitadores".


Disponível no original em italiano em: https://www.quodlibet.it/recensione/1496




 
 
 

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