L'architettura della partecipazione
- Raquel Nery

- 13 de jun. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: há 7 horas
A arquitetura da participação: um manifesto que o Brasil precisa ler agora. Uma reflexão sobre como o modelo participativo de Giancarlo De Carlo pode transformar a preservação de patrimônio no Brasil, superando o ciclo de fiscalização e indiferença.
Há livros que chegam como um soco no estômago — não por serem agressivos, mas por serem urgentes. L'architettura della partecipazione, organizado pelo arquiteto Giancarlo De Carlo e editado pela Quodlibet em 2013, é um desses. Ele reúne textos que, mesmo escritos há décadas, parecem feitos para o presente brasileiro: um momento em que a preservação de patrimônio ainda navega entre o tombamento jurídico e a ausência de ferramentas reais para manter, conservar e restaurar.
A trajetória de De Carlo é emblemática. Na década de 1970, ele construiu casas para famílias de trabalhadores em Terni de forma participativa — uma prática transgressora dentro do ideário modernista, que promoveu o arquiteto como "autor solitário" e a arquitetura como "rompante de genialidade individual".
O sucesso foi tão grande que o modelo se repetiu em Rimini (plano urbanístico) e na ilha de Mazzorbo, em Veneza. Não era só arquitetura: era um método que colocava as pessoas no centro do processo, desafiando a lógica de controle e eficiência que o modernismo havia abraçado.
Por que isso importa para o Brasil? Porque nossas ações de Preservação ainda vivem de um modelo defasado: fiscalização e punição, com indiferença sobre os meios reais que a sociedade e proprietários de imóveis tombados têm para restauro e conservação.
Tombamos imóveis, mas não criamos ecossistemas de participação que tornem o patrimônio vivo, ativo e sustentável. O resultado é o que vemos nas ruas: degradação, abandono e um senso comum que associa o antigo a "problema", não a oportunidade.
A resenha de Lucia Tozzi, traduzida abaixo, captura a essência do livro. De Carlo não escreve como um arquiteto comum — seus argumentos são claros, pacientes e fervorosos, como ele mesmo disse na revista Domus em 1995. Ele critica o modernismo não por ser moderno, mas por se aliar a ideologias de controle: o "zoneamento" como "clareza" repressiva, que divide funções urbanas para impor equilíbrio social, mas na prática sufoca conflitos e dissidências essenciais à vida urbana.
Para De Carlo, a arquitetura da participação recupera esses conflitos — não como estética ou pastiche, mas como poder. O arquiteto deixa de ser o centro da cena e envolve quem sempre foi excluído: moradores, usuários, comunidades. É uma mudança radical, que ele aplica em Rimini e Terni, descrevendo com sinceridade e lucidez acachapantes as armadilhas intrínsecas aos processos participativos — como o "roubo do consentimento", que na prática, acontece quando a participação vira mediação tendenciosa para conter conflitos reais.
No Brasil, isso poderia revolucionar a Preservação do patrimônio arquitetônico e urbanístico. Imagine processos participativos para projetos de restauro de centros históricos, inventários arquitetônicos feitos com comunidades, planos de preservação e conservação preventiva que envolvam moradores, gestores e iniciativa privada. Em vez de fiscalização punitiva, teríamos co-criação: proprietários, técnicos, sociedade civil e poder público construindo soluções viáveis, que respeitam cultura e território.
O livro é um convite a pensar além do óbvio. Em um país com acervo tombado crescente, mas recursos escassos, a participação não é utopia — é necessidade e é método. E, para quem trabalha com patrimônio, pode ser uma ferramenta essencial para transformar gargalos em oportunidades.
Por que isso importa para a preservação brasileira?
Em um contexto como o nosso — com gargalos em qualificação, investimento e política pública —, o modelo de De Carlo oferece um caminho propositivo: transformar fiscalização em diálogo, indiferença em engajamento. Para instituições como IPHAN, prefeituras e sociedade civil, é uma chance de construir preservação que não seja só jurídica, mas socialmente viável.
E aqui está a ponte com a formação especializada: para operar processos participativos com rigor, é preciso repertório técnico, método crítico e capacidade de coordenação. É nesse tipo de lacuna que uma formação sólida faz diferença — como a que oferecemos na Pós-Graduação em Restauro, onde profissionais aprendem a unir técnica, território e participação para impactar de verdade.
Resenha: A arquitetura da participação
Por Lucia Tozzi (tradução livre de Raquel Nery)
Nenhum arquiteto já escreveu como Giancarlo De Carlo. Na verdade, mesmo muitos escritores reconhecidos não podem se comparar com o excelente estilo de seus argumentos. "Desde que comecei a praticar arquitetura, senti-me assediado pelos aforismos que os arquitetos — especialmente os medíocres — continuavam recitando e, por isso, gostava de raciocínios claros que exigem trabalho paciente e imaginação fervorosa", disse De Carlo na revista Domus em 1995.
Sua obra-prima é The Architecture of Participation, o texto de uma conferência realizada em Melbourne em 1971 como parte de um ciclo sobre cenários futuros de arquitetura e planejamento urbano no Royal Australian Institute of Architects.
A Quodlibet acaba de publicá-lo na série Abitare, juntamente com dois textos sobre os casos de desenho participativo do plano Rimini e da vila Matteotti em Terni, uma escolha muito inteligente que nos permite compreender a medida radical do discurso político de De Carlo.


Na edição clássica do Assayer, dentro do volume "A arquitetura dos anos setenta", a conferência foi realizada após dois argumentos puramente arquitetônicos por Jim M. Richards e Peter Blake e esse contexto autorizou o leitor a interpretar a arquitetura de participação acima de tudo como uma crítica ao modernismo. E de fato, é inegável que o é, mas não no sentido geral e absoluto que lhe é atribuído.
O objetivo real de De Carlo não é o Movimento Moderno como tal, mas a arquitetura a serviço da autoridade e — naqueles anos — a teoria e a prática modernistas estreitaram laços cada vez mais apertados com as ideologias reacionárias de controle e eficiência da produção.
Sua tese é que "a consonância entre o movimento moderno e o 'zoneamento' surgiu de um mal-entendido sobre o princípio da 'clareza': a clara divisão de funções parecia aos modernistas o melhor meio de obter a máxima clareza das formas urbanas, das quais, de acordo com o dogma, surgiria equilíbrio social. Mas a 'clareza' não é (em si mesma) uma virtude, muito menos possui habilidades de exorcização em relação ao conteúdo que expressa. Não há nada mais claro do que uma linha de montagem, uma ordem policial e uma declaração de guerra".
Aplicada a uma coisa complexa como o sistema de relacionamentos e conflitos da vida urbana, a clareza só pode se tornar um elemento repressivo. Segundo De Carlo, a arquitetura da participação é aquela que permite recuperar as críticas e dissidências, a desordem e os conflitos que o uso da cidade impõem inevitavelmente. Seu discurso, no entanto, nada tem a ver com a dimensão estética ou com os pastiches espontâneos que começaram a florescer naqueles anos, mas diz respeito exclusivamente ao poder.
Ele não se importa com Venturi, Scott Brown e Las Vegas de Izenour, ele quer mover o ego sem limites do arquiteto do centro da cena para envolver aqueles que sempre foram excluídos no processo de tomada de decisão.
Ao contar as experiências de Rimini e Terni, em meio ao entusiasmo e ao fracasso, De Carlo descreve com grande lucidez as armadilhas que um processo tão ambicioso implica, e o pior é o que ele define como "o roubo do consentimento": nada o repeliu mais do que uma participação pretendida como mediação tendenciosa, como uma captura de energias positivas para conter conflitos reais e potenciais.
E pensar que seus herdeiros diretos, os profissionais da participação, hoje são chamados de "facilitadores".
Disponível no original em italiano em: https://www.quodlibet.it/recensione/1496
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